Cláudia Targa - Professora Universitária e da Educação Básica EF I e II e EM
domingo, 16 de junho de 2013
O Avestruz – Texto de Mário Prata - 6º ano
O Avestruz - Texto de Mário Prata - 7º ano
O Avestruz - Mário Prata
No Aeroporto – Texto de Carlos Drummond de Andrade
No aeroporto
Carlos Drummond de Andrade
Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-lo a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras, e, a bem dizer, não se digne de pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões, pelos quais se faz entender admiravelmente. E o seu sistema.
Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas boas intenções para com o mundo ocidental e oriental, e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação.
Devo dizer que Pedro, como visitante, nos deu trabalho; tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores. Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou importuno. Suas horas de sono - e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia - eram respeitadas como ritos sagrados, a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém nós mesmos é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos. Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da tevê. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância.
Objetos que visse em nossa mão, requisitava-os. Gosta de óculos alheios (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá-las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca. Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis - porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada, sobre a razão íntima de seus atos.
Poderia acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade - e, até, que a nossa amizade lhes conferia caráter necessário de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
Viajou meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. Reprod. em: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 1107-1108.
VOCABULÁRIO:
alheio: que não nos pertence, que é de outra pessoa.
ameno: agradável, terno, meigo.
galeão: aeroporto internacional do Rio de Janeiro.
incontinência: incapacidade de reter urinas ou fezes.
ostensivo: algo praticado de forma intencional, de modo provocador.
parco: escasso, que faz economia ou que poupa.
puído: gasto
quadrimotor: aeronave que tem quatro motores.
requisitar: pedir, solicitar.
Entendendo o texto:
01 – Como você classificaria Pedro: uma pessoa egoísta ou egocêntrica? Justifique sua resposta.
Uma pessoa egocêntrica, porque faz de tudo pra chamar a atenção pra si.
02 – O gênero textual ao qual se enquadra o texto “No aeroporto”, de Carlos Drummond de Andrade, é:
a) Conto.
b) Fábula.
c) Crônica.
d) Ensaio.
03 – Qual a intenção do narrador ao usar a expressão grifada no trecho abaixo?
“Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva.
a) Destacar o poder do sorriso de Pedro na vida das pessoas.
b) Apreciar a ousadia de Pedro quando sorri para as pessoas.
c) Mostrar o sorriso como elemento de fantasia na vida de Pedro.
d) Expressar a influência que o sorriso dissimulado exerce.
e) Demonstrar a inquietação de Pedro ao sorrir para as pessoas.
04 – Que significa a palavra sublinhada sugere no contexto?
“Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído”.
O significado pode ser: usado, gasto, mirrado, surrado e no caso do texto idoso, viveu muitos anos.
05 – Pela descrição do autor a respeito de Pedro no início do texto, como Pedro nos parece?
Uma pessoa de poucas palavras, ou quase nenhuma. O mais é conversa de gestos e expressões. É o seu sistema.
06 – E afinal quem é Pedro?
É o neto do escritor.
07 – Em que momento do texto você percebeu que o amigo de que o autor fala é uma criança bem pequena?
Resposta pessoal do aluno.
08 – Qual é a característica do amigo Pedro que mais chama a atenção do cronista?
Seu sorriso – que a todos cativava.
09 – Também há nesta crônica pontos em que o autor diz as coisas com certo humor. Identifique alguns deles.
Como o autor só vai revelar que está falando de uma criança de um ano de idade no último parágrafo, as referências aos costumes e comportamentos do Pedro têm sempre um lado engraçado. A referência, por exemplo, ao sorriso encantador, apesar da falta de dentes. Os cuidados para que o sono de Pedro não fosse perturbado. A atitude de Pedro de tudo requisitar e pôr na boca.
10 – A viagem do neto faz o cronista pensar na vida. Que sentimento ele expressa ao final do texto?
Certamente, a solidão e a tristeza.
11 – Observe, por fim, as diferentes formas que o autor usou para fazer referência à cor dos olhos do neto. Observe também que ele começa falando dos olhos e termina por referir-se ao olhar. Que efeito de sentido tem esse deslocamento na descrição que o autor faz do neto?
Talvez o efeito de sentido mais forte de mudar do olho para o olhar seja precisamente a ênfase que o autor quer dar à interlocução que se estabelecia entre ele e o neto pela troca de olhares (contato interpessoal sempre muito forte, em especial na fase em que a criança é muito pequena e ainda não fala).
Pausa – Texto de Moacyr Scliar
Situação de Aprendizagem - Texto: Pausa
Gênero Literário:
Conto – Elementos da Narrativa – Interpretação/Compreensão Textual
Pausa
"Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu
para o banheiro, fez a barba e lavou-se. Vestiu-se rapidamente e sem ruído.
Estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a mulher apareceu, bocejando:
—Vais sair de novo, Samuel?
Fez que sim com a cabeça. Embora jovem, tinha a fronte calva; mas as
sobrancelhas eram espessas, a barba, embora recém- feita, deixava ainda no
rosto uma sombra azulada. O conjunto era uma máscara escura.
— Todos os domingos tu sais cedo — observou a mulher com azedume na voz.
— Temos muito trabalho no
escritório — disse o marido, secamente.
Ela olhou os sanduíches:
—Por que não vens almoçar?
— Já te disse: muito trabalho. Não há tempo. Levo um lanche.
A mulher coçava a axila esquerda. Antes que voltasse à carga, Samuel
pegou o chapéu:
—Volto de noite.
As ruas ainda estavam úmidas de cerração. Samuel tirou o carro da
garagem. Guiava vagarosamente, ao longo do cais, olhando os guindastes, as barcaças
atracadas. Estacionou o carro numa travessa quieta. Com o pacote de sanduíches
debaixo do braço, caminhou apressadamente duas quadras. Detevese ao chegar a
um hotel pequeno e sujo. Olhou para os lados e entrou furtivamente. Bateu com
as chaves do carro no balcão ,acordando um homenzinho que dormia sentado numa
poltrona rasgada. Era o gerente.Esfregando os olhos, pôs-se de pé.
—Ah! Seu Isidoro! Chegou mais cedo hoje. Friozinho bom este, nãoé? A
gente..
—Estou com pressa, seu Raul!—atalhou Samuel.
— Está bem, não vou atrapalhar. O de sempre. — Estendeu a chave.
Samuel subiu quatro lanços de uma escada vacilante.
Ao chegar ao último andar, duas mulheres gordas, de
chambre floreado, olharam-no com curiosidade:
—Aqui, meu bem!—uma gritou, e riu: um cacarejo curto.
Ofegante, Samuel entrou no quarto e fechou a porta à chave.
Era um aposento pequeno: uma cama de casal, um guarda-roupa de pinho; a
um canto, uma bacia cheia d'água, sobre um tripé. Samuel correu as cortinas
esfarrapadas, tirou do bolso um despertador de viagem, deu corda e colocou-o
na mesinha de cabeceira.
Puxou a colcha e examinou os lençóis com o cenho franzido; com um
suspiro, tirou o casaco e os sapatos, afrouxou a gravata. Sentadona cama, comeu
vorazmente quatro sanduíches. Limpou os dedos no
Papel de embrulho, deitou-se e fechou os olhos.
Dormiu.
Em pouco, dormia. Lá embaixo, a cidade começava a mover-se: os
automóveis buzinando, os jornaleiros gritando, os sons longínquos.
Um raio de sol filtrou-se pela cortina, estampou um círculo luminoso no
chão carcomido.
Samuel dormia; sonhava. Nu, corria por uma planície imensa, perseguido
por índio montado a cavalo. No quarto abafado ressoava o galope. No planalto da
testa, nas colinas do ventre, no vale entre as pernas, corriam.
Samuel mexia-se e resmungava. Às duas e meia da tarde sentiu uma dor
lancinante nas costas. Sentou-se na cama, os olhos esbugalhados: o índio
acabava de trespassá-lo com a lança. Esvaindo-se em sangue, molhado de suor,
Samuel tombou lentamente; ouviu o apito soturno de um vapor. Depois, silêncio.
Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para a
bacia, lavou-se. Vestiu-se rapidamente e saiu.
Sentado numa poltrona, o gerente lia uma revista.
—Já vai, seu Isidoro?
— Já — disse Samuel, entregando a chave. Pagou, conferiu o troco
em silêncio.
—Até domingo que vem, seu Isidoro — disse o gerente.
—Não sei se virei—respondeu Samuel, olhando pela porta; a noite caía.
— O senhor diz isto, mas volta sempre — observou o homem, rindo.
Samuel saiu.
Ao longo do cais, guiava lentamente. Parou, um instante,
ficou olhando os guindastes recortados contra o céu avermelhado. Depois,
seguiu para casa."
SCLIAR, Moacyr.In:BOSI,Alfredo.O conto brasileiro contemporâneo. SãoPaulo:
Cutrix,1997
Nesta Situação de Aprendizagem serão apresentados aos alunos o gênero textual “conto” e suas principais características; além disso, serão retomados os elementos da narrativa. Espera-se que, ao final das atividades propostas, o aluno seja capaz de reconhecer a tipologia narrativa “conto”, desenvolvendo e ampliando sua capacidade de leitura.
Ano: 9º. Ano do Ensino Fundamental. Tempo previsto: 06 aulas. Conteúdos: conceito de conto; retomada dos elementos da
narrativa, dando ênfase nas personagens; leitura do texto “Pausa”, de Moacyr
Scliar; roteiro de perguntas e produção escrita. Textos poéticos, música. Competências e habilidades: reconhecer o gênero “conto”,
analisar suas características, identificar e inferir informação pressuposta
ou subentendida em um texto literário, com base na sua compreensão global;
inferir opiniões ou conceitos pressupostos ou subentendidos em um texto;
interpretar um texto pertencente ao gênero em estudo e desenvolver a
competência leitora. Estratégias: estudo do gênero e dos elementos da narrativa;
leitura e interpretação do texto “Pausa”; discussão com os alunos fazendo as
devidas intervenções. Recursos: Cópia do texto; uso de datashow para reprodução dos
slides com o conteúdo das aulas. Avaliação: ·
Participação contínua nas atividades propostas,
sejam elas orais ou escritas. ·
Leitura e análise de contos, usando questões que
contemplem o conto e as estratégias de leitura. ·
Elaboração de textos sobre as situações propostas
em sala de aula. A partir da reflexão e proposta da turma. Faremos o texto
conforme a escolha dos alunos, em conjunto. Se a escolha for um poema,
poderemos fazer uma exposição em murais da escola. |
1º. Passo: o professor apresenta aos alunos o plano de aula contendo o
tema (assunto) a ser trabalhado durante a semana, os respectivos objetivos e o
que será avaliado.
2º. Passo: Ativação de Conhecimento do Mundo; antecipação ou predição;
checagem de hipóteses:
Apresentar o título: o que sugere o termo “pausa”?
Em que situações você faria uma pausa?
A nossa sociedade está precisando fazer uma pausa? Em que ponto?
Você já refletiu sobre os relacionamentos amorosos da atualidade.
O que acha que há de certo ou errado neles?
Você acha que situações estressantes podem acabar com o amor ou o
casamento?
O que espera de um relacionamento?
3º. Passo: apresentação do conceito de conto e focalização dos aspectos
presentes nos textos lidos de acordo com a definição adotada.
O que é Conto: O conto é
uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de
fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um
narrador, personagens, ponto de vista e enredo. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto, acesso
em 16 de junho de 2013. |
4º.
Passo: após esclarecer as possíveis dúvidas dos alunos, o professor propõe a
leitura do conto Pausa do autor Moacyr Scliar. No
entanto, antes da leitura, o professor fala um pouco sobre a vida e obra do
autor a fim de despertar nos alunos o interesse por outros textos e obras do
autor em questão. O professor propõe que a primeira leitura seja individual e
pede aos alunos para lerem quantas vezes acharem necessárias e pede, também,
para que os mesmos registrem, caso seja necessário, os vocábulos e expressões
não conhecidas.
5º.
Passo: Produção de inferências locais e globais após a leitura do
texto.
Deixar
que o aluno se coloque frente às situações apresentadas pelo conto – a voz
azeda da mulher, o fato de ela coçar as axilas mostrando o desleixo com a
aparência, a ausência do marido sempre nos finais de semana, já que ele deve
também trabalhar aos sábados; a opção por um lugar decaído e cheio de
prostitutas, a possibilidade de uma traição por parte do marido.
Por que será que Samuel não termina o casamento já
que aparentemente tem necessidade de dar uma pausa no relacionamento?
Por que as pessoas agem assim depois de um período
nos relacionamentos?
(O conto relata a história de Samuel, um jovem
rapaz aparentemente casado com uma mulher mal humorada e de companhia
desagradável. Vê-se pela colocação do narrador “quando a mulher apareceu,
bocejando:”; “— Todos os domingos tu sais cedo — observou a mulher com azedume
na voz.”; “A mulher coçava a axila esquerda.”.
Todos os domingos, Samuel sai cedo com a desculpa
que vai trabalhar, pois há muito trabalho, e vai para um hotel decaído, usado
para encontro furtivos com prostitutas. Há no momento em que elas são citadas
certo suspense. Será que Samuel trai a mulher?
Depois da leitura compartilhada com a turma, essas
enumerações acima vão surgir entre os alunos. Se for necessário, o professor
deve sugerir tais questionamentos.)
6º. Passo: Percepção de relações de
intertextualidade
Ouvir a Música Esquadros de Adriana Calcanhoto
através de vídeo ou áudio e letra.